terça-feira, 12 de junho de 2007

O CARA CERTO NO LUGAR CERTO (e com um tanto de talento)

O movimento punk nasceu na Inglaterra como um protesto social contra o desemprego, a qualidade de vida, a economia recessiva e os insucessos políticos para solucionar tais problemas. Certo? Absolutamente errado, segundo o livro “Mate-me Por Favor”, uma coletânea de entrevistas com os personagens principais dessa história (os músicos, as groupies e os agregados), organizado em forma de diálogo por dois jornalistas. A edição é impressionante e faz com que a verdade vá aparecendo pela repetição, entre uma porção de mentiras, aumentos, e relatos de gente que estava, na maior parte do tempo, em outra dimensão.

O punk, de fato, ou pelo menos suas raízes, estão nos Estados Unidos, com bandas de jovens arruaceiros e perdidos que tocavam em pequenos clubes no começo dos anos 70. Daí vieram os Stooges de Iggy Pop, o Televison, Dead Boys, Dictators, New York Dolls, Ramones, Blondie e cia. E é aí que entra Bob Gruen, fotógrafo que ganhou fama documentando shows, backstages, festas, orgias, intimidades e momentos de criação destes que viriam (para a surpresa deles, que se julgavam “ratos de porão”) a fazer História. Algumas de suas fotos mais famosas, como a de John Lennon com a camiseta “New York” (dada a ele pelo próprio Gruen), estão na exposição Rockers, na FAAP, até 1º de julho (http://www.bobgruen.com/events.htm).

Suas primeiras fotos foram tiradas assim, aos 20 anos, desempregado, por diversão, do ídolo Bob Dylan. Gruen conseguiu um passe livre para ficar lá na frente junto com fotógrafos profissionais no Newport Folk Festival, em 1965 - alguém imagina isso acontecendo hoje? -, aquele em que Dylan empunhou uma guitarra e disse “rock’n’roll é folk music”, e foi vaiado até sair do palco.



Cercado de amigos com bandas de rock, estas desconhecidas na época e hoje, Gruen começou a fotografá-los nas noitadas e documentar os shows. Um desses amigos arrastou-o para o show de Tina Turner e Ike, em 1970, e, imaginem, era um show pequeno, de início de carreira da dupla, no Queens. Gruen conseguiu um lugar bem na frente e tirou várias fotos de Tina dançando na luz estroboscópica, o que deu criou um efeito impressionante nos negativos preto e branco. No show seguinte, ele levou as fotos para mostrar para os amigos, que, na saída, praticamente jogaram Gruen em cima de Ike para que mostrasse seu trabalho. E Tina adorou. Essas fotos, aliás, estão logo no início da exposição, com um metro de altura.



O “cara certo no lugar certo”, como ele mesmo já disse, virou depois melhor amigo e fotógrafo oficial de John Lennon e Yoko Ono, na época em que estavam em Nova York. Depois foi conhecendo produtores, gravadoras e jornalistas, e conseguindo trabalhos aqui e ali, com os Bee Gees, Elton John, etc.

Gruen conta* como ficava até a uma da manhã fotografando para ganhar dinheiro com os “irritadinhos” da indústria da música (ele não cita nomes) e depois ia ao centro da cidade, ao Max’s ou ao CBGB’s, os clubinhos underground, tomar uma cerveja, ficar com os amigos e ver a banda, geralmente garotos desempregados que aprendiam dois ou três acordes e formavam um grupo para ganhar o dinheiro da noite. Com os NY Dolls foi assim, com Patti Smith também, Ramones idem, Debbie Harry ibidem. Bem, o resto já se sabe: o público cresceu, surgiram os contratos, eles ganharam o inesperado dinheiro, destruíram hotéis, fizeram turnês pela Europa, e muitos morreram de acidentes ou overdose. Ah, Gruen também viajou muito pela Inglaterra, acompanhou os Sex Pistols (a foto de Sid Vicious lambrecado de cachorro-quente está na fachada da FAAP, e também integra a exposição) e o conturbado relacionamento de Sid com Nancy Spungen. No livro “Mate-me Por Favor” existem relatos que contrariam a versão oficial de que ele a teria matado durante uma festa regada a drogas em um quarto do Chelsea Hotel. O próprio Bob Gruen disse que “vicious” (algo como “malicioso”) era totalmente o contrário do que era Sid, apaixonado e medroso.



Bob Gruen tinha duas vantagens que provavelmente não percebia na época: era um dos únicos que “perdia tempo” fotografando músicos esquisitos, que, por serem proposital e assumidamente esquisitos (e, achava-se, fadados aos pequenos palcos das lanchonetes improvisadas até terem um emprego “decente”) se deixavam fotografar nas situações mais esdrúxulas e naturais do seu cotidiano. Bem, e tinha o fato de ele ser amigo de todos eles, presente em todas as festas, shows e viagens. Gruen vendia algumas dessas fotos para a Creem e a Rock Scene, revistas respeitadas no meio. Na época, só no meio. Hoje, Bob faz exposições. Quando surgiu a câmera de vídeo, ele começou a filmar os shows, e as bandas se empolgavam para ver os próprios shows, capturados em vídeo pela primeira vez. Hoje, Bob vendeu alguns trechos para documentários da BBC e da Warner. É, o mundo mudou.


*Informações tiradas da entrevista com Carlo McCormick (http://www.bobgruen.com/interview.htm) e do livro “Mate-me Por Favor”, de Legs McNeil e Gillian McCain – que, aliás, fundaram a “Punk Magazine”, revista e fanzine do clubinho e que, dizem eles, cunhou o termo “punk” (http://www.nyrock.com/killme.htm).

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Censura: violência e silêncio na música Cálice

A censura oficial do regime militar brasileiro é motivo de diversas discussões entre artistas e músicos brasileiros. Se para alguns, como o maestro Júlio Medaglia, ela incentivou a criatividade, para outros, como Chico Buarque, ela significou um obstáculo, uma pedra no caminho da produção artística e intelectual brasileira.

Chico revelou em várias entrevistas que o controle externo do conteúdo de suas canções interferia na criação, ceifando muitas idéias e possibilidades de uma música. Ademais, os artifícios para se driblar a censura, como o uso de metáforas, deixaram, muitas vezes, tão intrincados os sentidos das letras que atualmente o próprio compositor não recorda o sentido de determinadas passagens. Chico Buarque representou em diversas músicas esta opressão sentida pela censura sistemática que sofria e pela negação política de sua obra, vista pelo compositor como um roubo da própria voz.

Cálice, feita em parceria com Gilberto Gil, é um exemplo de música alegórica a respeito da censura e das dificuldades de se compor sob ela, podendo ser encarada como uma metalinguagem da palavra expropriada, pois trata da expressão contida, no limite levando ao silêncio. Na canção, a palavra cálice é repetida freqüentemente, adotando o sentido e a sonoridade de cale-se, representação da repressão sobre a produção cultural – a manifestação artística calada arbitrariamente pelo Estado.

Na música, o silêncio imposto torna-se, progressivamente, mais violento a cada estrofe, como uma censura que vai se institucionalizando, profissionalizando e tornando-se mais forte. Na primeira estrofe há o verso: “mesmo calada a boca resta o peito”. Na terceira: “mesmo calado o peito resta a cuca”. E, por fim, na última, a própria cabeça é perdida, e sem ela há o silêncio total: “quero perder de vez tua cabeça / minha cabeça perder seu juízo”. Nesse trecho, a boca pode ser encarada como simbolizando a capacidade de comunicação; o peito, a capacidade de sentir e a cabeça a capacidade de pensar, ou seja, gradualmente extinguiram-se as próprias faculdades humanas, a impossibilidade de manifestação do pensamento por meio da palavra anula o próprio indivíduo, decapita o artista.

A composição, gravada em 1973, parece dialogar diretamente com o governo Médici, que usou, além da censura, a tortura e a morte para calar os chamados subversivos, ou seja, aqueles que ousavam falar. O verso “silêncio na cidade não se escuta” mostra que existiam muitas vozes querendo se expressar, porém a situação as obrigava a não se pronunciar, a palavra não saía da garganta, pois existia “tanta mentira, tanta força bruta”, ou seja, a ameaça explícita e velada de uso da violência contra os opositores abafou as vozes das cidades.

A violência volta a se relacionar com o silêncio nos versos “como é difícil acordar calado / Se na calada da noite eu me dano / Quero lançar um grito desumano / Que é uma maneira de ser escutado”. Acordar calado é difícil, mas necessário, pois se não se cala, corre-se o risco da danação noturna, isto é, durante a noite realizavam-se muitas das prisões políticas, longe dos olhos dos “cidadãos de bem”, podendo culminar em tortura e até em morte, encaradas, nessa análise, como representadas pelo “grito desumano”, o grito daqueles que perderam a humanidade pelas mãos dos torturadores, mas que no sacrifício – assim como nos sofrimentos de Jesus Cristo na cruz, tema sugerido pela repetição das palavras pai, vinho, sangue e cálice – se fazem ouvir.

Na quarta e na quinta estrofes é possível interpretar o sentido dos versos como uma tentativa do autor mostrar que, apesar da “palavra presa na garganta”, há a possibilidade de resistência. “De muito gorda a porca já não anda / de muito usada a faca já não corta” é a imagem de um Estado gigantesco, invasor dos âmbitos privados, crescendo ainda mais, gerando sua própria contradição, a faca que de tanto cortar perde sua utilidade. Enquanto o quarteto “esse pileque homérico do mundo / de que adianta ter boa vontade / mesmo calado o peito resta a cuca / dos bêbados do centro da cidade” evidencia um mundo ao avesso – a ditadura que destruiu a democracia em construção dos anos 1950 e 1960 -, um mundo bêbado, fora de si, onde apenas a vontade ou a idéia de mudar não bastam e onde os que pensam, aqueles que ainda têm cuca, estão bêbados com o regime, isto é, as classes médias dos centros das cidades iludidas com o crescimento econômico, classes que emperram a mudança. Todavia elas perderão a cabeça, segundo a vontade do autor, na estrofe seguinte.

Quando se diz “quero perder de vez tua cabeça” refere-se a esse teu, um interlocutor elíptico, podendo ser visto como esta cabeça dos centros das cidades e dos donos do poder, Chico pode estar referindo-se a essas classes médias que têm papel fundamental na manutenção do regime e contribuem significativamente com a formação, consolidação e reprodução de valores favoráveis ou geradores da crença sobre este sistema político. Então perder tua cabeça adquire um valor de negação da ilusão, dos valores e da crença no status-quo, “minha cabeça perder teu juízo”.

Nos dois primeiros versos da última estrofe parece existir uma chama de esperança ou a tentativa de retirar o véu ideológico desse governo que provoca o silêncio para conter a reação. “Talvez o mundo não seja pequeno” procura quebrar certa visão lacônica e imediatista – geradora de conformismo, própria das camadas sociais beneficiadas pelo “milagre econômico” – e mostrar a vastidão do mundo, a existência de inúmeras experiências políticas diferentes, outros modelos de regime, formas diferentes de se organizar um país e múltiplas soluções para os mesmos problemas, que não necessariamente passem pela violência. No verso seguinte, “nem seja a vida um fato consumado”, existe a tentativa de quebrar o conformismo e a apatia e mostrar que as coisas são mutáveis, que a vida dos homens é um processo, é história, não está escrita e não é monolítica, sendo passível, portanto, de uma ação transformadora.

O mundo que se espera com a transformação é aquele que permita “inventar o próprio pecado” e “morrer pelo próprio veneno”, ou seja, permitir ao povo realizar-se, governar-se, tentar e pagar pelo próprio erro, como nos regimes democráticos, e não impor a verdade através de um Estado centralizador.

A raiva e a vontade de fugir desse governo opressor aparecem já na primeira estrofe em “de que me serve ser filho da santa / melhor seria se filho da outra”, pois as rimas são organizadas de forma a induzir o leitor a construir um palavrão. As palavras finais dos versos anteriores são: labuta, peito, escuta, santa, logo em seguida aparece outra, soando estranha ao ouvido.

Uma possibilidade para se entender esta agressividade é a censura sistemática da obra de Chico Buarque, principalmente no governo Médici. Porém, é possível perceber na canção que o foco não está composição musical, mas possui um caráter mais amplo.

É difícil separar, mesmo um pouco distante historicamente, o que foi incentivado pela censura e o que foi impossibilitado, contudo é passível de reflexão o fato de que, principalmente a partir dos anos 1950, o Brasil sofreu um momento de efervescência cultural que durou, pelo menos, até meados dos anos 1970. Então, a censura, por si só, não explica o surgimento de grandes compositores populares sob a ditadura militar, e buscar nesse instrumento de um governo a resposta para manifestações artísticas profícuas do período é no mínimo especular com a História.

O que está em jogo quando se fala em censura é a relação estabelecida entre o público e a coisa pública, ou seja, aquilo que deveria ser de acesso geral, pois diz respeito à própria sociedade, sua organização e sua reprodução, contra interesses particularistas, que estabelecem seus domínios com a apropriação do pertencente à coletividade. Dizendo respeito tanto a conteúdos – artísticos, culturais, jornalísticos, de transparência (só para usar uma palavra da moda) - como a direitos e deveres estabelecidos em conjunto (não em um sentido conservador, de ordem, mas de reconhecimento das desigualdades e da busca de uma saída para elas, ou os velhos vocábulos: universalização, acesso, distribuição, equidade).

E esta ligeira definição talvez ajude a mostrar que a composição de Chico Buarque e (do velho) Gilberto Gil não esteja tão velha assim. Quantos cale-se você não ouviu ultimamente? Do congresso? Da mídia? De empresas? De qualquer pessoa que tivesse algo a comprovar? A institucionalizada não é a forma mais refinada de censura.

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Abaixo, video da música Cálice tocada por Chico e Gil no festival PHONO 73, no Anhembi. A letra da canção havia sido censurada, juntamente com Anna de Amsterdã, de Chico, mas os artistas decidiram subir ao palco e apresentá-la com a letra distorcida. Porém, os policiais exigiram que a mesa cortasse os microfones. No DVD é possível ouvir Chico dizer: "Estão me aporrinhando muito. Esse negócio de desligar o som não estava no programa. Claro, estava no programa que eu não posso cantar a música nem "Anna de Amsterdam". Não vou cantar nenhuma das duas. Mas desligar o som não precisava não".





domingo, 3 de junho de 2007

Memórias de McCartney

Certa vez perguntaram ao Paul (Sir Paul, desculpe) se um dia ele pretendia parar de compor. Ele não gostou da pergunta. Agora, mesmo aos 64, parece ter o entusiasmo que tinha quando, ao fim dos Beatles, se trancou num estúdio para compor e gravar todos os instrumentos de um novo projeto solo. Mas apenas parece. De lá pra cá há um enorme abismo.

Em 1970, entre uma dose e outra de uísque, ele brincava com a aparelhagem de seu home studio. Aproveitava o sossego de sua fazenda na Escócia para experimentos. Incorporava a espontaneidade. Criava solos de bateria e gravava sua respiração ofegante conforme aumentava a pressão sobre os tambores. Não tinha preocupações com Heather Mills, na época uma inofensiva recém-nascida. Havia Linda...O patrimônio criado pelos Beatles permitia que Lennon e McCartney - o Harrison também - seguissem em frente, sozinhos. A cobrança ficava entre eles: qual Beatle é mais criativo (leia-se: vende mais – embora não seja a mesma coisa) em carreira solo?

Porém, conforme alertava Bob Dylan, os tempos estão mudando! O Sargento Pimenta fez 40 anos (ontem), e nesta semana é lançado Memory Almost Full, o 21º álbum solo de McCartney. E lá vamos nós - todos nós de corações solitários - ver o que o ex-Beatle (não gosto do prefixo. Não é como ser um Menudo. Uma vez Beatle, sempre Beatle!) anda fazendo. E qual é a reação ao ouvir Dance Tonight, a primeira faixa? Bastam quinze segundos para um pensamento: “Esse é o mesmo cara que participou da quarentona obra-prima do rock?”.

Se os tempos mudaram, e principalmente as circunstâncias para compor, outras coisas continuam como antes. Em entrevista recente, Paul diz usar os mesmos pequenos truques para composição de quando assinava com John Lennon. E, de fato, algumas lembram Beatles, outras Wings, e também um pouco de seus últimos trabalhos. Veja lá nas velharias dos Wings se já não foi gerado material parecido com Dance Tonight. É como a roupagem de Mull of Kintyre (1973) substituindo violão por bandolim, e gaita-de-fole por...assovios. Logo, não deveria surpreender, mas, pode decepcionar quem procurava algo revolucionário (teria como?).

A diferença é que em 1973 era possível lançar Mull of Kintyre num compacto para promover um álbum. Mas, quem comprava o novo disco não ouviria Mull of Kintyre! Estava apenas no compacto - por sinal, o mais vendido da história. Hoje a estratégia é diferente. Paul, além de todo talento musical, também é conhecido como bom marketeiro (sem conotações pejorativas, por favor). Sabe criar singles e fazer vender. Ou, pelo menos, sabia...

Dada a extinção dos compactos, Dance Tonight foi “promovida” com grande modernidade: o YouTube. A palavra acima não à toa está entre aspas. Muitos fãs vão considerar a música um atentado contra a imagem do Memory Almost Full. Um amigo, fanático por Beatles, disse que a ouviu e se desinteressou para conhecer o resto. Digo, “o resto”.

As comparações com seu último álbum, Chaos and Creation in the Backyards (2005), sobre qual é melhor, foram imediatas. Embora inevitável, a comparação não é justa. Ouvia-se dizer antes do lançamento de Chaos: “um dos melhores trabalhos de McCartney”; “uma prima de Blackbird entre as músicas” (yeeeah, o marketing deu certo!). Antes do lançamento foi criada uma boa expectativa, sem nenhuma faixa ter vazado na Internet! A estratégia funcionou, não em termos de vendas (afinal, os tempos mudaram), mas, foi bem aceito – e o álbum é realmente bom.

Já Memory Almost Full chega discreto, sem alardes. Não se esperava o lançamento de dois álbuns em um período tão curto (sem contar o Ecce Cor Meum, trabalho clássico lançado há poucos meses). Logo, a publicidade ficou por conta de Dance Tonight justamente no ano em que voltamos a falar de Sgt. Pepper. Ao contrário de Chaos, quem apenas ouviu o single chega com maus pressentimentos para conhecer “o resto”. Vista as circunstâncias desfavoráveis deste lançamento, resta o exercício de ouvir – o álbum, para o infortúnio de Paul, caiu na Internet semanas antes de ser lançado.

Não é preciso muito para perceber que a sonoridade (timbres, freqüência do microfone, a repetitiva ressonância da vogal ‘u’, etc) se assemelha com o Driving Rain, de 2001. Então, descobre-se que o produtor foi o mesmo, David Kahne. Na época de Chaos, muito se falou sobre Nigel Godrich, que já produziu o Radiohead, auxiliando e sabendo interpretar como as canções deveriam soar. Se existe alguém que mais teme comparações, este é David Kahne, que dispara numa entrevista ao jornalista brasileiro Claudio Dirani: “Este (o atual) é meu álbum favorito do Paul”. Percebem? É o mesmo marketing, talvez tardio. Se Nigel Godrich teve o prestígio de ser indicado por George Martin, dos Beatles, para o álbum de 2005, David Kahne não teve o mesmo mérito. E, antes de ser criticado, ele espertamente se defende: “Por favor, não use referências de outras músicas! Paul é diferente. Ele não resgata nada em seu passado. Compõe, toca e grava sempre pensando em criar algo novo”.

Embora minta, a defesa é compreensível. E eu, assim como ele, também evito comparações (mesmo porque Mull of Kintyre é melhor do que Dance Tonight (!!!!) ).

Agora, se sua admiração pelo Sir. não foi afetada, e você não pensa que ele seja apenas o Beatle romantiquinho, acomode-se numa poltrona tão convidativa quanto a estampada na capa do CD para uma audição. Ouça os riffs de Only Mama Knows, a tensão de House of Wax, os elementos clássicos e pseudo-eletrônico de Mister Bellamy, e a melancolia de You Tell Me. Quem sabe você não seja levado a pensar que os tempos não mudaram tanto assim.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

DISTANTES

Três anos depois de algumas cartas de amor e nenhum beijo sequer, eles se reencontram pela Internet. Haviam se formado há três meses.

- Nossa! Você??
- ?
- Tudo bem?
- Olá! Tudo bem. E você?
- Opa. Saudades, hein...
- É mesmo. O pessoal faz muita falta...
- É.
- Ainda tem visto alguém?
- Sempre que posso, vejo uns. Muito de vez em quando, outros.
- Ah. Eu, quase nunca.
- Sei.
- Precisamos combinar um boteco e reunir todo mundo.
- Com certeza!
- No próximo sábado, então, é legal pra você?
- Muito bom!
- Vamos combinar.
- Eu fecho.
- Legal. Mas e aí, tá na TV ainda?
- Ah, sim, ainda estou... de pouquinho em pouquinho.
- Mas você fica!
- Tomara.
- É.
- Soube, aliás, que a sua empresa fechou e...
- Pois é. De repente.
- Sério?
- Não pude nem recolher minhas coisas. O oficial de justiça baixou e não quis nem saber.
- Que coisa, hein!
- É.
- Você tem que vir pra São Paulo, o momento é agora.
- Eu sei. Preciso ir, mesmo. Preciso me organizar.
- Faça isso.
- Vou fazer. Estou esperando as coisas se acertarem um pouco.
- Que coisas?
- Sei lá.
- Entendi.
- Você pensa em fazer uma pós-graduação?
- Pós enquanto não.
- ...
- Foi uma piada.
- Ah.
- Entendeu?
- Péssima.
- Pra lembrar os tempos de faculdade.
- Você não muda, mesmo.
- Mas e você? Pensa na especialização?
- Gostaria. Mas primeiro tenho que me acertar, né?
- Com o quê, exatamente?
- Não sei, exatamente.
- Ué...
- Com as coisas.
- Entendi.
- Pelo menos pós enquanto, então, fica difícil...
- HAHAHA. Boa!
- Ai, pra te dizer a verdade, tô cansada dessa vida de desempregada, viu.
- É foda...
- Além de tudo, estou engordando horrores!
- Ah, vá... que engordando, nada. Você está ótima na foto aí do lado.
- A foto é velha!
- Eu sei. Foi outra piada.
- Ah...
- É a foto de Campos.
- Ela!
- Viu?
- Oi?
- Eu lembro...
- Você já foi pra lá?
- Não. Eu lembro da foto, disse.
- Preciso ir.
- Pra lá?
- Pra onde?
- Pra Campos, ora.
- Não, né.
- Pra onde?
- Pra lá, que eu digo, é pra lá. Pra cozinha, pra sala, sei lá.
- Entendi.
- Sair disso aqui um pouco.
- Mas já?
- É.
- Ah.
- Ficar sem fazer nada cansa.
- É. Também vou.
- Ficar sem fazer nada?
- Não. Pra lá.
- Pra Campos?
- Não, né! Pra...
- Eu sei. Foi uma piada.
- Você não muda, mesmo.
- Olha quem fala.
- Eu? Ninguém muda.
- Verdade.
- Então...
- Beleza. Tchau tchau.
- Promete pra mim que nós vamos nos ver.
- Claro.
- E vamos combinar, pô!
- Vamos sim! No próximo sábado é perfeito...
- Fechado.
- Mesmo?
- Opa.
- Legal.
- Agora eu vou. Preciso ir.
- Ok, Beijos.
- Té mais.
- Sábado.
- Té lá.

No próximo sábado seria muito difícil, ele previu (com alguma culpa). Ela não iria de jeito nenhum, mesmo que ainda nem tivesse pensado nisso.

domingo, 27 de maio de 2007

Esse tal de ROQUENROU

Rock é música ou atitude? Os ponderados diriam que é uma mistura dos dois. Os rebeldes, com ou sem causa - há várias causas, faltam rebeliões -, diriam ser atitude. Os apaixonados acreditam que é música.

É que hoje a velocidade é outra, como disse o jornalista-cultural-que-está-em-todos-os-lugares Lúcio Ribeiro: “A velocidade da informação está beirando o absurdo. Quem fica parado dois segundos é poste. Sabe o disco do LCD Soundsystem que ainda nem saiu? Está velho. Lança outro, James”. Pois é, tanto para se desenhar uma trajetória quanto para descobrir – ou criar – novas bandas de sucesso, a velocidade atual é galopante.

Quando o vovô rock nasceu, há quase sessenta anos, conseguir um disco era uma odisséia para os ouvintes e saber o que faria sucesso era pisar em ovos para as gravadoras. Hoje, a questão não é saber o que faz sucesso, trata-se muitas vezes de criar o sucesso, direcionar o gosto do público e colocar a etiqueta poprock – junção que já dá uma boa medida do que o rock se tornou, não? Pop é o contrário de atitude, o contrário de revolução, o contrário de perigoso. É pop. Ou alguém acredita na rebeldia e nos cabelos cuidadosamente desarrumados do RBD? Na atitude de Avril Lavigne, a skatista com carinha de má mais bem maquiada e chapinhada da história?

Tá certo, exemplos fáceis. Mas as bandas-promessa se multiplicam como vírus de gripe! É Franz Ferdinand, Moptop, Klaxons, CSS, Bloc Party, Arcade Fire, Kaiser Chiefs, Clap Your Hands Say Yeah, Arctic Monkeys, Wolfmother, Dan Le Sac, Keane, Kassin (queeem?). Fale a verdade, pra acompanhar tudo isso não dá pra ouvir mais de 30 segundos de cada música nova, como naquele aparelhozinho que só toca um sample de cada música nas Fnacs. Ouvir uma música duas vezes então, nem pensar. Não dá tempo. Está velha. Não é que não haja coisa boa, claro que há, ou deve haver. Mas se perde no mar de informação, propaganda, tietagem, martelação, alarde, exposição, picaretagem, photoshop (de imagem e de som), estratégia, tempo de vida.

O rock já foi perigoso, lá quando as mães de adolescentes se apavoravam com os rebolados de Elvis (cujos discos gastavam e riscavam de tanto ouvidos), com as calças rasgadas e cabelos sujos dos Ramones, com a androgenia brilhosa de David Bowie, com o efeito que os Beatles tinham sobre suas filhas, com a revolução dos sentidos que os Doors proporcionaram. Não é saudosismo, é questão de timing. O movimento rock passou, o perigo se foi, sobrou a boa música. O jazz também já foi perigoso, quando os negros começavam a tomar espaço numa sociedade segregada, nas figuras de Glenn Miller, Billie Holiday, Louis Armstrong e Ella Fitzgerald – só quatro exemplos, pra tentar resumir o irresumível. Não é mais, é música para se ouvir com whisky e público seleto.

Perigoso é o que dá voz ao que era ignorado. Hoje, é o funk, é o rap, é música (?) que vem de quem tem com o que se revoltar: desigualdade social, na voz das minorias. Perigoso é filho de empresário ouvir que, para seu pai enriquecer, muita gente teve que empobrecer. Perigoso é filha de rico subir o morro porque a vida lá parece mais emocionante que ser mimada. Perigoso, no sentido de abalar as bases do cotidiano, é ver que aqueles que estão à margem da sociedade (como os negros estiveram antes do jazz, e os jovens antes do rock) estão ganhando espaço, pelo menos na discussão. E que o rock é o “grito da borboleta”, como cantou Jim Morrison em “When the Music's Over”.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Me apresentando-se

Não faço parte dos “quatro amigos”, que tiveram a idéia de criar o blog e colocar aí os seus textos, pra quem quiser ver. Vontade eu até tive, uma vez ou outra, de fazer algo desse tipo, mas, para o bem da verdade, me faltava coragem. Eu ia empurrando com a barriga, deixando pra “um dia”, quem sabe, o compromisso de escrever pra valer e, mais ainda, de permitir que as pessoas lessem - e gostassem ou desgostassem. Coisa que quem se mete a escrever sabe bem como é.
Quando me chamaram pra também escrever pro blog, foi como se, como num anúncio publicitário, alguém dissesse: “Helen, a hora é agora”. Até me imaginei sendo chacoalhada pelo “anunciador”. Coisa besta de quem tem mania de ficar matutando sobre tudo. Fiquei pensando em milhares de coisas, de implicações, mas aceitei, num misto de medo e euforia. Outra coisa besta, já que escrever em blog é coisa que muita gente faz, sem ser acometido de mal algum.
Por um lado, era bom saber que, por eu ter me comprometido a postar alguma coisa toda semana, eu finalmente desengavetaria aquela infinidade de papeizinhos que vêm sendo guardados ao longo do tempo, com projetos, inícios e trechos de contos, crônicas, poemas e sei lá mais o quê. Por outro, vinha o medo de ter que finalmente me sentar de frente pro computador e dizer: “Ok. Vou escrever, porque esse é o meu negócio”. E não escrever jornalisticamente, pra informar, denunciar, ou tentar mudar o mundo – delírios que jovens jornalistas costumam ter - mas, sim, escrever por escrever, o que me viesse à cabeça. Escrever o que me vem à cabeça já é tarefa difícil pra burro, porque a cabeça da gente parece que é uma coisa confusa que só. Publicar, então, é um feito. É como se eu colocasse o dedo no buraco da fechadura, não pra acabar com a graça de quem quer espiar, mas, isso sim, pra depois abrir a porta de vez e dizer: “Taí”.
Cada texto meu, cada rascunho, cada rabisco, por mais que trate de outras pessoas, ou de coisas que me são alheias, está carregado de mim. Dos meus sonhos, das minhas opiniões, dos meus medos, das minhas fantasias, dos meus delírios... Não há como negar. É um misto daquilo que eu penso sobre as pessoas, sobre o mundo, sobre mim mesma. Em cada palavra eu me denuncio. A cada palavra eu vou me achegando à luz dos holofotes e todos vão vendo com maior nitidez como eu realmente sou. E quando eu já estiver espremendo os olhos, por conta da luz forte, vocês podem descobrir que eu não sou em nada parecida com o que aparentava ser. Posso ser melhor ou pior. E vocês podem: ou dar de ombros, ou, se forem do tipo de pessoa que fica matutando sobre tudo, ficar matutando sobre isso. Agora, que resolvi escancarar a porta, não me importo.

Cada palavra de um texto não está lá por acaso. Cada palavra é escolhida a dedo, é pescada no meio de todas as outras, por melhor traduzir aquilo que até então apenas fluía, que até então era inominável. Quem pelo menos uma vez se decide a escrever, tem a difícil, mas excitante, experiência de transformar em palavras o que antes era pensamento, sentimento.

Já que vou me "desnudar" daqui pra frente, vou aos poucos... Um mini-conto:

Relacionamento

Olhando a mulher vestir-se, notou um roxo em seu braço. Não reconheceu.
-Ela deve ter outro homem!
Foi tirar satisfações.



quinta-feira, 17 de maio de 2007

DOIS GÊNIOS - INTRODUÇÃO

O que é ser genial? Ou, antes, quais são os fatores constitutivos da genialidade? Nos discursos individualistas e liberais a categoria gênio aparece como algo em si, ou seja, o gênio guardaria em suas características internas a explicação para sua própria existência. Desta maneira, este indivíduo aparece como alguém em separado do universo social e da história, distanciado das condições que o permitiram diferenciar-se e destacar-se da maioria, como o se o terreno do trabalho e do estudo aplicados para o desenvolvimento da intelectualidade, habilidades técnicas, destrezas, acúmulo de conhecimentos, sublimação de sentimentos, etc., fosse soterrado por uma série de variáveis metafísicas, como dom, talento, inspiração, isto é, qualidades inatas surgidas quase como um sopro divino.

Não quero afirmar que o aspecto do suor desapareça, mas ele é reduzido à quase inexistência quando a explicação dirige-se ao campo dos ímpetos e lampejos criativos surgidos diretamente da própria individualidade, como se houvesse uma separação entre homem (mundo) e o gênio (indivíduo único), e não uma relação. Este é o erro de muitos biógrafos, que centralizam suas obras a partir da perspectiva estrita, tanto psicológica quanto narrativa, do seu objeto de análise, acabando por desconsiderar o contexto, a formação e as condições históricas que permitiram a uma determinada pessoa realizar um certo trabalho.

A tese deste texto é: não é o indivíduo que determina a si mesmo, ou seja, não é o gênio que se constitui enquanto tal, mas uma série de fatores, tanto sociais e históricos quanto psicológicos, constituídos enquanto tensões, relações, conflitos e contradições que formam os sujeitos e determinam o escopo e a profundidade de suas ações, de sua intervenção no mundo. Da mesma maneira, essas características são parte da forma como os tidos gênios são encarados em cada momento histórico.

Para discutir este assunto, abordarei uma área que talvez seja a mais suscetível ao reconhecimento de gênios: a arte, neste caso, a música ocidental. Contudo, esta escolha acarreta um problema imediato: a música é algo natural, pois está presente em praticamente todas as sociedades conhecidas; ou artificial, ou seja, é uma ação do homem em relação ao meio (o som, a acústica, o corpo, a relação entre o movimento do eu e o objeto a vibrar), que, apesar de presente, diferencia-se em cada formação social?

Aposto na segunda resposta, pois qual a semelhança entre o canto xavante, os atabaques bantos, um canto cerimonial indiano e uma sinfonia de Beethoven? São música, não há dúvidas, mas um ocidental em meio à floresta mobilizaria os mesmos sentimentos que um xavante ao ouvir a canção entoada em uma cerimônia religiosa? Um banto da Nigéria teria um deleite estético da mesma forma que um berlinense ao ouvir a nona sinfonia? A música, apesar de guardar algumas características que a permitem ser classificda como tal, possui um componente social muito marcante, diferenciador do modo como uma sociedade possibilita ao compositor sublimar sentimentos e fantasias em algo passível de ser apreciado e sentido por seu grupo, ademais, adquire ao longo da história uma lógica própria, uma maneira específica de relação com a razão, quase como uma gramática de uma língua (imaginem, leitores, uma escala feita em um piano, se o pianista deslizar e tocar apenas uma tecla errada ou a mais, vocês não sentiriam um quê de desarmonia nos ouvidos? ).

Julguei dois compositores emblemáticos para abordar este tema: Bach e Mozart. O primeiro motivo é óbvio, são geniais, ou, mais especificamente (dentro das intenções do texto), são considerados geniais atualmente, dotados de uma aptidão rara para a composição e a execução musicais. Bach demorou décadas para ser reconhecido enquanto tal, apesar de praticamente fundar na polifonia a relação entre harmonia e contraponto e levar ao extremo as fugas, foi criticado muito tempo por possuir traços ditos arcaizantes, oriundos da música medieval. Porém, foi resgatado por alguns compositores românticos e alçado à categoria de gênio no século XX. Deixarei os detalhes deste debate para a terceira parte deste texto.

O segundo motivo para a escolha destes músicos foi o momento histórico em que viveram, no qual a música ainda não era uma arte de artista, mas uma arte de artesão. Os detalhes destas categorias sociológicas serão discutidos na parte sobre Mozart, mas apenas para informar rapidamente ao caro leitor minhas intenções, farei um breve resumo comparando estes dois a um compositor de outra época, Beethoven.

Bach e Mozart produziram em um período no qual o gosto era exterior ao artista, isto é, o que era belo era ditado pela nobreza cortesã (e em última instância pelo príncipe). O músico era de vital importância, pois provia o entretenimento para os nobres avessos ao trabalho manual, mas possuía o mesmo status social de um cozinheiro. Como não trabalhavam na produção, os membros da corte atribuíam-se o trabalho de ouvir e avaliar as composições, por menos que soubessem de música, obrigando os artistas, para serem consagrados, a respeitar determinadas regras na hora na composição. Mas, mais profundamente, este quadro refletia a situação social do músico: era um não-nobre, por melhor que fosse, seria sempre um serviçal, deveria produzir sonatas, cantatas, concertos, sinfonias e óperas como o cozinheiro preparava os banquetes, correndo sempre o risco de o nobre enjoar do tempero. Bach viveu assim em uma das épocas mais duras – em relação ao gosto estrito - do mecenato, sua estratégia, consciente ou não, foi buscar na transcendência religiosa dos temas uma forma de superação das amarras impostas a sua música.

Já Mozart, como menino prodígio, possuía certo reconhecimento em diversas cortes européias, mas isto não foi o suficiente para ele se firmar como artista autônomo. Diversas de suas transgressões à música de corte foram aceitas, mas isto não significou um rompimento com esta forma. Porém, sua atitude avant-la-lettre o colocou à margem das instâncias de consagração de Viena, provocando a depressão que antecedeu sua morte.

Aqui, o contraponto é Beethoven, que começou a compor à época da maturidade de Mozart, mas viveu seu auge em uma fase de ascensão econômica da burguesia, acompanhada de certo ganho de prestígio social, enquanto na França, concomitantemente, esta classe alcançava o poder político. Isto representou um aumento gigantesco de um mercado de música – óperas passaram a vender ingressos ao público em geral, o comércio de partituras e instrumentos se expandiu -, significando uma mudança na relação entre o produtor e o consumidor de arte. O músico passou a interagir com um mercado mais amplo - o público burguês era maior em número e mais diversificado- e não apenas com um tipo de empregador que determinava as regras. Tornou-se possível compor mais livremente e ao artista estimular e influenciar o gosto do público. Beethoven conseguiu realizar sem grandes conflitos o projeto de autonomia que Mozart tentou sem sucesso. Pôde, assim, subjetivar sua produção, de maneira mais livre tanto na forma quanto no conteúdo e no método de trabalho, com a possibilidade de escolher o consumidor final e com acesso a um maior número de libretos, apesar de ter composto poucas óperas. A arte passou a depender mais do modo como o artista encarava suas fantasias, como questionava a si mesmo e ao mundo e como subjetivamente produzia e sublimava na forma de obra de arte do que do gosto de classe, ou seja, dependia de como sua consciência sublimada encontrava eco ou fazia ecoar as estruturas simbólicas de sua sociedade; a autoconsciência passou ser mais determinante do que os dogmas da tradição. É interessante o fato deste processo ter ocorrido anteriormente com a literatura na Alemanha, que, muito antes da música, constituiu seu mercado de bens culturais.

Portanto, Bach e Mozart podem melhor ajudar a compreender como os fatores históricos e sociais estão relacionados com a produção musical pois viveram uma época em que os sentimentos deveriam ser canalizados por um critério puramente de classe, no qual não havia sentido pensar a arte pela arte. Mozart pode ter sido um indivíduo com alguma qualidade especial inata, mas a forma como ele utilizou esta qualidade na música foi determinada também pelo seu contexto histórico-social.

Deste último aspecto, derivarei o terceiro motivo de minha escolha: o caráter quase mítico adquirido por Mozart. Nas histórias e frases que ouvimos, como “Mozart é a própria música” ou “Mozart estava conversando com amigos e ficou calado por alguns instantes, pediu licença e voltou quinze minutos depois: acabara de compor um quarteto de cordas”, (inclusive, muitos fatos excepcionais, como este último, estão registrados em correspondências de amigos e da família do compositor), este caráter de um homem acima dos homens pelo seu gênio singular é marcadamente expresso, possibilitando uma análise mais clara – pela força do objeto – e desmistificadora, mas não no sentido de diminuir o autor e a obra, mas de valorizá-los como trabalho humano, e não como fonte dos deuses ou orixás, santos, ou qualquer instância sobrenatural.

Antes de se afirmar se o gênio de Salzburg nasceu diferente dos demais seres humanos ou se ele se construiu de forma distinta, é preciso deixar claro que muitos se aventuraram, mas poucos conseguiram alguma resposta. As análises basearam-se em fatos documentados e em séries de correspondências, mas, segundo críticos, ou chegaram a becos sem saída pela insuficiência das fontes existentes ou pecaram pela mesma mistificação aqui criticada: tentaram explicar o homem, mas “esqueceram” de compreender o mundo vivido.

Então, o que é o talento? A psicologia pode não ter desvendado a natureza de muitas questões relativas à sensibilidade, à capacidade de transformar as sensações internas na materialidade da obra artística – a objetivação das estruturas sentimentais – ou das indagações relativas ao caráter congênito ou adquirido dessas potencialidades. No entanto, é possível refletir rapidamente sobre o exemplo acima tratado através de perguntas simples: seria Mozart um grande compositor se não tivesse nascido numa família de músicos, escutado desde o berço o pai – professor tido como brilhante e perfeccionista – dar aulas de piano à irmã e aos três anos tocar pela primeira vez as teclas para rivalizar com a menina e receber as mesmas gratificações afetivas de seu progenitor? Se não tivesse excursionado pela Europa ainda menino, recebendo mais carinho do pai e paparicos dos membros das cortes anfitriãs quanto melhor tocava e nestas viagens ter tido contato e aprendido com músicos como Haydn? Se ele não se formasse intelectual e emocionalmente em um círculo social no qual a música era a única e pequena possibilidade de ascensão e prestígio social? Ou, se a sua relação com o mundo não tivesse sido tão fortemente mediada por um pai disciplinador, que estruturava o afeto entre pai e filho pela música?

São dimensões extremamente complexas de serem trabalhadas e não me proponho a qualquer solução, contudo pretendo utilizá-las para conduzir o questionamento central deste texto. Quero apenas instigar o caro leitor a imaginar até que ponto nosso próprio juízo sobre estes gênios criadores não está influenciado pelo individualismo de nossos dias e se, desta maneira, nós não ocultamos a História e criamos mitos para justificar ideologicamente nossa própria alienação, o apartamento de nós mesmos por forças incontroláveis; a pensar se esta forma de encarar as relações sociais e os homens não é fruto de um pensamento tipicamente reacionário, cuja reprodução está presente nos discursos mais cotidianos (mas que passam despercebidos), e, finalmente, a dar elementos para um debate neste blog acerca própria produção contemporânea.

Caros leitores: para quem chegou até aqui, farei algumas observações:

1 – O texto ficou muito grande para um blog, então eu o desmembrei em três:

1.1 INTRODUÇÃO: A primeira parte, postada acima, teve o intuito de situar o leitor na discussão que desenrolarei ao logo das partes, os problemas a serem debatidos e propor alguns questionamentos relativos ao individualismo de análise..

1.2 O HOMEM-ARTISTA MOZART: Nesta segunda parte, pretendo discutir alguns pontos da biografia e da obra de Mozart a partir de uma perspectiva sociológica (com algumas sugestões de análise psicológica). Por exemplo, como era sua relação com seus empregadores e com seu pai. Qual a diferença entre se produzir arte de artesão e arte de artista. Como o artista lidava com as instâncias de consagração e de prestígio social de sua época. Se sua postura combativa tinha um viés político ou se era motivada por ambições pessoais e o que implicou seu rompimento com o arcebispo de Salzburg e sua ida a Viena. E porque fracassou seu projeto de autonomia.

1.3 O OUVINTE DE BACH NO PÓS-GUERRA e a CONCLUSÃO: Nesta parte, quero apontar aspectos do público ouvinte das obras de Bach após a segunda guerra e tentar produzir algumas pequenas generalizações no sentido de evidenciar como o contexto histórico do público interfere na execução e na interpretação de uma obra, como determinados juízos históricos acerca da reprodução de uma música podem produzir o contrário da pretensão do artista. E na conclusão pautar-me-ei pelo aspecto político do discurso individualista presente no discurso do gênio.

Observações para todas as partes do texto, mesmo as não postadas:

1 – Sr. Crespo, desculpe-me, mas não consigo não ser ranzinza.

2 – Não colocarei a bibliografia com o risco de, além de ranzinza, ser chato.

3 – A melhor forma de ler este texto é não ler este texto, mas comprar um bom vinho e ouvir a Sinfonia Júpiter de Mozart ou as 6 Suites de Violoncelo Sem Acompanhamento de Bach.

4 – Como um jornalista não-jornalista e pretenso sociólogo, mas ainda um não-sociólogo, declaro: este texto possui grandes generalizações, porém o Ministério da Informação adverte: foram causadas pelo formato blog.

5 – Antes que alguém pergunte: não, as categorias burguesia e corte não possuem qualquer significado valorativo, moral ou religioso, mas objetivo. E sim, são vistas a partir do ponto de vista do materialismo histórico.

6 – Vamos tomar uma cerveja e ver o tempo passar? Afinal, quem escreve poesia não é poeta, só é poeta quem vive como poeta. Beberemos cerveja, pensaremos que somos poetas, mesmo não o sendo. Viva a ilusão etílica. Viva Baudelaire. Qui dit vous?

Observações sobre o blog:

Parafraseando (ou melhor, copiando) o Regulamento Rex (publicado em Rex Time 3, de 25 de maio de 1966), proponho algumas regras para este blog:

1 – Laisser-passer (não fure a bola)

2 – Laisser-faire (deixa a gente jogar)

3 – Acreditar piamente na imortalidade da Alma (por uma questão de conforto)

4 – Manter o Bom-Humor a todo pano. (... o Bom-Humor nosso, não o dos outros)

5 – A Pena e a Espada dominam o Mundo, a Vaselina supera as duas. (Atualmente já existe o KY)

6 – Eu sou um cavalo velho, que venho de todas as guerras e batalhas, e não estou ligando para mais nada.

7 – Nós vemos tudo, ouvimos tudo, falamos tudo e eles não vêem nada, não ouvem nada, e não dizem nada (a não ser o que todo mundo sabe).

8 – A vida é feita de detalhes (ou nuances, como queira).

9 – Uma coisa puxa a outra. (Acrescento: tirar a calça tem sempre uma conseqüência)

10 – Toda a Guerra é uma festa. Toda festa é uma guerra.

11 – Quando todos estão brincando, nós estamos trabalhando, e quando todos estão trabalhando, nós estamos dormindo!

12 – Nada se cria, nada se perde, e dá tudo sempre na mesma, e vamos acabar com esta conversa, seu convencido!